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06/01/0006 às 00:00
Jesus na Visão Espírita
João Machado - Grupo Espírita à Caminho da Luz

"Qual é o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem

para lhe servir de guia e modelo? Jesus"

Allan Kardec

Questão 625. O Livro dos Espíritos

 

Allan Kardec questiona os Espíritos Superiores acerca de um modelo e guia para a Humanidade, obtendo uma resposta curta e objetiva: Jesus. Em seus comentários à resposta obtida, Kardec assim se expressa: "Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque sendo ele o mais puro de quantos tem aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava."

Inegável, portanto, a importância fundamental de Jesus para a Doutrina Espírita, que busca nos ensinamentos do Mestre de Nazaré o arcabouço da moral que preconiza. "O Evangelho Segundo o Espiritismo" não é uma versão nova dos Evangelhos contidos no Novo Testamento, nem se constitui em uma nova interpretação dos textos bíblicos. Seus comentários e análises buscam aproximar os homens da essência dos ensinos do Mestre, como buscavam entende-la os cristãos dos primeiros tempos, antes que o Cristianismo se desvirtuasse do caminho da simplicidade envolvendo-se com os poderes temporais.

Após Pentecostes, os seguidores de Jesus iniciam a tarefa de divulgação de seus ensinamentos, que muitos deles haviam ouvido de sua própria boca, outros, como Paulo, buscaram em outras fontes o conhecimento da Boa Nova. O Cristianismo se expande, deixando as fronteiras judaicas e adentrando o mundo dos gentios, isto é, daqueles que não faziam parte do mundo judeu. As ideias do Mestre são alvo de interpretação e começam a sofrer influência das culturas estrangeiras, especialmente da cultura oriental, da civilização grega, egípcia, etc.. Autores eruditos, a maioria padres e bispos da Igreja nascente, buscavam conciliar as ideias de Platão, com a mensagem de Jesus. Para dirimir dúvidas e manter uma doutrina única eram organizados sínodos e concílios, onde os assuntos eram discutidos e tomadas as decisões pertinentes. Aqueles cujas ideias ou interpretações não eram aprovadas e permaneciam irredutíveis em suas opiniões, assim como seus seguidores, eram denominados hereges e excomungados. Importante observar que os imperadores também podiam convocar os concílios.

As doutrinas religiosas dos primeiros séculos buscavam explicar o fenômeno Cristo e entendimentos sobre outros assuntos tais como o bem e o mal, a vida após a morte etc. Dentre estas doutrinas podemos citar o Arianismo, no início do sec. IV, uma das mais importantes heresias cristãs, que a Igreja teve a maior dificuldade de erradicar. Árius (280-336 dC), sacerdote de Alexandria, foi o seu criador. Esta doutrina se referia à natureza de Jesus, ele não seria co-eterno e nem da mesma substância do Pai, mas foi gerado pelo Pai. O Filho teria um começo, o Pai não. O arianismo não reconhecia a Trindade: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. Apesar de combatido, nos Concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381) continuou a ter adeptos e influenciou povos até o século XVIII. Foi Constantino, imperador romano do período na decadência do império, que interferiu e determinou que o arianismo estava errado e que era uma heresia. O imperador visava manter a coesão do império, para o qual tinha estabelecido o Cristianismo como religião oficial.

Qual a natureza de Jesus segundo a visão espírita? Allan Kardec, no livro "Obras Póstumas", faz um estudo detalhado sobre a natureza do Cristo, onde mostra que as discussões existentes sobre a matéria fundam-se mais em abstrações do que em fatos. Justificando a posição espírita, que considera Jesus não como Deus, mas como um Espírito Puro, apresenta os seguintes argumentos, com base nos atos e palavras de Jesus, conforme registrados nos Evangelhos:

a)       os chamados milagres não provam a divindade de Jesus ? desde que os milagres puderam ser explicados pelas leis da ciência, deixaram o seu caráter  sobrenatural para se enquadrarem nos fenômenos de ordem natural, explicáveis;

 

b)      as palavras de Jesus não demonstram a sua igualdade ao Pai, ao contrário mostram a sua subordinação:

"Ouviste o que foi dito: Eu me vou e volto a vós. Se me amásseis, rejubilaríeis, pois que vou para meu Pai, porque meu Pai É MAIOR DO QUE EU" (João, 14:28).

 

c)       palavras de Jesus após sua morte também evidenciam a distinção e subordinação de ao Pai:

"Jesus lhe respondeu: Não me toques, porquanto ainda não subi a meu Pai; vai, porém, ter com meus irmãos e dize-lhes da minha parte: subo a meu Pai e vosso Pai, a MEU DEUS e vosso Deus" (João, 20:17 ? Aparição a Maria Madalena)

 

d)      opinião dos apóstolos -  tendo vivido na intimidade do Cristo ninguém O conhecia mais profundamente:

"Os reis da terra e os príncipes se uniram contra o SENHOR e contra O SEU CRISTO. Herodes e Pôncio Pilatos com os Gentios e o povo de Israel verdadeiramente se conluiaram contra o vosso santo Filho Jesus, a quem consagrastes por vossa unção, para fazer tudo o que o vosso poder e o vosso conselho haviam ordenado que fosse feito." (Atos dos Apóstolos, 4:26 a 28 ? Prece dos Apóstolos).

 

Alinha o Codificador outros importantes argumentos mostrando que Jesus não assumiu, em nenhuma ocasião, que fosse Deus, ao contrário sempre se colocou em condição hierárquica inferior ao Pai, corroborando a visão espírita, como o demonstram suas próprias palavras:

 

"Não tenho falado por mim mesmo; aquele que me enviou foi quem me prescreveu, por seu mandamento, o que tenho de dizer. A doutrina que prego não é minha, mas daquele que me enviou; a palavra que tendes ouvido não é palavra minha, mas do meu Pai que me enviou." (João 12, 49-50).

 

A atuação do Mestre Galileu dividiu os tempos em antes e depois de sua vinda à Terra. É o momento de nos perguntarmos: "e a nossa vida, o que ocorreu com ela depois que conhecemos os ensinamentos do Mestre?". Temos seguido o nosso Modelo?

 

Referência bibliográfica

KARDEC, Allan. Obras Póstumas. FEB.

KRAMBECK, Alan. Curso de Filosofia Espírita ? Vol. IV ? "As religiões e a filosofia espírita".

 



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