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14/02/2017 às 00:00
Um estudo de caso da Revista Espírita: Os irmãos Davenport
Luiz Maurício de Abreu Arruda, Diretor, Educação Espírita, 42º CEU (Conselho Espírita de Unificação)
A Revista Espírita foi um periódico fundado por Allan Kardec, veiculada entre 1858 e 1869, totalizando 12 volumes com 144 números. Neste precioso acervo, nos é facultado acessar a inúmeros acontecimentos particulares aos primeiros movimentos de consolidação da Doutrina Espírita. Efetivamente, trata-se de um convite para conhecermos o laboratório de Allan Kardec.

Dos assuntos analisados e divulgados pelo Codificador em seus variados artigos, um deles nos chamou atenção pela repercussão na imprensa que causou e pela forma como foi conduzido pelo mestre lionês. Publicado no periódico de outubro da Revista Espírita de 1865, trazia como título: "Os irmãos Davenport".

Ira Erastus Davenport e William Henry Davenport nasceram em Buffalo, no estado de New York, EUA. Tudo indica, que os dois rapazes e inclusive a sua irmã Elizabeth, eram dotados de inúmeras faculdades mediúnicas. Após o início de sessões públicas em locais variados, onde "chegaram os três juntos a flutuar sob as cabeças de vários presentes na sala" atingiram rapidamente fama e status internacional, ganhando notabilidade como as já conhecidas da história do Espiritismo, as "irmãs Fox"[1] que inclusive são contemporâneas a eles.[2]

Segundo Arthur Conan Doyle, a mercantilização das ditas "faculdades" ocorreu logo que se iniciaram as grandes apresentações em público, através de espetáculos quase circenses. Após se apresentarem na Inglaterra, o próximo passo foi em direção a Cidade Luz, símbolo máximo da Modernidade.

Antes dos irmãos Davenport chegarem, informa Kardec:

 

(...) Algum tempo antes de sua chegada, uma pessoa veio ver-nos, da parte deles, para nos pedir que os apoiássemos em nossa Revista. Mas sabe-se que não nos entusiasmamos facilmente, mesmo pelas coisas que conhecemos e, com mais forte razão, pelas que não conhecemos.[3]

 

Prudentemente, Kardec não acolhe o pedido e se resguarda em emitir juízo de valor, uma vez que não os conhecia, afirmando inclusive que as opiniões sobre os espetáculos eram divididas em todos os locais onde apresentados.

Ao chegar em Paris, os irmãos omitiram sua presença, realizando pequenas apresentações a públicos reservados. A primeira apresentação aberta ao grande público, ocorreu no dia 12 de setembro de 1865 na Sala Hertz e nos informa Kardec:

 

(...) repetiu as cenas tumultuosas de Liverpool, e na qual um dos espectadores, pulando para o palco, quebrou o aparelho desses senhores, mostrou uma tábua e exclamou: "Eis o truque." Esse ato, inqualificável num país civilizado, levou a confusão ao cúmulo.[4]

 

Uma série de questionamentos poderiam ser levantados a partir destes fatos. O principal deles seria: Afinal, os irmãos são ou não médiuns? Seriam ilusionistas? Suas biografias sinalizavam inúmeras faculdades, no entanto, Kardec mantém sua postura de primeiro analisar os fatos, a fim de não recorrer a objetividade que se apresentava, preservando sua reputação e a honorabilidade dos Srs. Davenport. Ao analisar as apresentações, Kardec aponta uma série de instruções aos espíritas, a partir desse estudo de caso. Destaco:

 

"Uma objeção mais séria é a pontualidade com a qual os fenômenos se produzem, em dias e horas certos e à vontade."

 

Esse fato contraria a natureza dos Espíritos, uma vez que a repetição facultativa de um fenômeno é legitimamente suspeita. O preceito de que o "telefone toca de lá para cá" é singular para o entendimento desse princípio. Em outro momento, o codificador ratifica essa condição:

 

"Os Espíritos vêm quando querem e quando podem, donde resulta que o médium mais bem dotado por vezes nada obtém; é como um instrumento sem músico."

 

Mesmo atuando de forma cautelosa e vigilante, Kardec foi duramente criticado por boa parte da imprensa francesa, que se aproveitou da circunstância para associar os irmãos Davenport ao Espiritismo, gerando elementos robustos aos detratores da Doutrina, que personificaram no descrédito dado aos Davenport a ridicularização dos médiuns e da mediunidade. Alguns jornais como o Courrier de Paris du Monde Illustré criticou os irmãos Davenport, porém sem associá-los ao Espiritismo. Em outro artigo, publicado no ano seguinte, um dos críticos da Doutrina, afirmou que os irmãos Davenport seriam apóstolos e sumo sacerdotes do Espiritismo e que esse seria o seu golpe de misericórdia[5]. Kardec não se deixa abater pela ocorrência dos fatos, destacando que:

 

Quanto ao Espiritismo, evidentemente é quem mais lucrará. Seus adeptos o compreendem tão bem que absolutamente não se emocionam com o que se passa e esperam o resultado com confiança. (...) Antes de mais, o Espiritismo ganhará com isto uma imensa popularidade e se tornará conhecido, ao menos de nome, por uma porção de gente que dele nunca tinha ouvido falar.[6]

 

Em setembro de 1866, Kardec retoma a questão sobre os Davenport, devido a passagem deles por Bruxelas. Nesse artigo, o codificador demonstra a repercussão na Bélgica e seus debates em torno dos princípios da Doutrina Espírita.

E quanto aos irmãos Davenport, o que lhes restou foi o descrédito. O exemplo sinaliza um alerta para os médiuns da atualidade, que buscam a mercantilização desta faculdade santa. Trata-se de uma aptidão natural e que deve ser orientada pelo preceito do Cristo, quando afirma que "de graças recebeste, de graça dai".


[1] As "Irmãs Fox" foram três mulheres que, nos Estados Unidos da América tiveram um importante papel na início do Moderno Espiritualismo Ocidental. As irmãs eram Katherine "Kate" Fox, Leah Fox e Margaret "Maggie" Fox. Para maiores informações: As carreiras das Irmãs Fox. In: DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo, São Paulo: Editora Pensamento, 2008. pp.103-128.

[2] Segundo Conan Doyle, os jovens possuíam inúmeras faculdades mediúnicas. Depois de 10 anos de trabalho público pelas cidades americanas, os irmãos conquistaram grande reputação e viajaram para Europa iniciando suas atividades no velho continente pela Inglaterra.  "Os irmãos Davenport". In: História do Espiritismo, São Paulo: Editora Pensamento, 2008. pp.206-209.

[3] KARDEC, Allan. Os Irmãos Davenport. In: Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, ano VIII ? 1865. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Editora Federação Espírita Brasileira, 2004. pp. 413-414.

[4] Id, p.416.

[5] KARDEC, Allan. Novo e Definitivo enterro do Espiritismo. In:  Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, ano IX ? 1866. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Editora Federação Espírita Brasileira, 2004. pp. 87-91.

[6] KARDEC, Allan. Os Irmãos Davenport. In:  Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos, ano VIII ? 1865. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: Editora Federação Espírita Brasileira, 2004. pp.423-424



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